{"id":46,"date":"2022-06-12T08:20:29","date_gmt":"2022-06-12T11:20:29","guid":{"rendered":"http:\/\/quanticalabs.com\/wp_themes2\/portada\/?p=46"},"modified":"2023-03-01T17:46:30","modified_gmt":"2023-03-01T20:46:30","slug":"sobre-o-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/danivitoretti.com\/psicanalise\/sobre-o-amor\/","title":{"rendered":"Sobre o Amor"},"content":{"rendered":"<p>Existe um c\u00f3digo secreto registrado em uma linha t\u00eanue entre a cria\u00e7\u00e3o e a identidade do ser humano que extrapola os limites da raz\u00e3o. De um fant\u00e1stico imagin\u00e1rio a um extraordin\u00e1rio subjetivismo, o Amor parece confundir os sentidos e provocar rea\u00e7\u00f5es que se manifestam de diferentes maneiras at\u00e9 que possamos finalmente descobrir quem somos e o quanto podemos suportar dentro de um universo particular.<\/p>\n<p>S\u00e3o muitos os estudos acerca desse sentimento que buscam romper com o simples conceito de afetividade por algu\u00e9m, seja familiar, social ou sexual para trazer \u00e0 luz do conhecimento um entendimento mais profundo atrav\u00e9s da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Na mais recente obra \u201cA gente mira no amor e acerta na solid\u00e3o\u201d, Ana Suy alerta sobre a possibilidade de que n\u00e3o h\u00e1 amor que nos livre da solid\u00e3o, mas sim do desamparo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de autora dos livros \u201cAmor, desejo e psican\u00e1lise\u201d, \u201cN\u00e3o pise no meu vazio\u201d e \u201cAs cabanas que o amor faz em n\u00f3s\u201d, Ana Suy Sesarino Kuss tamb\u00e9m \u00e9 Psicanalista, professora da gradua\u00e7\u00e3o de Psicologia da PUC-PR e Doutoranda em pesquisa e cl\u00ednica pela UERJ, mestre em Psicologia Cl\u00ednica pela UFPR.<\/p>\n<p>Segundo ela, devemos saber o quanto valioso \u00e9 para o desenvolvimento ps\u00edquico em ficarmos sozinhos na rela\u00e7\u00e3o com o outro e que aprendemos isso desde cedo enquanto crian\u00e7as com nossos pais (l\u00ea-se cuidadores).<\/p>\n<p>O importante \u00e9 saber como lidar com essa angustia em viver com a gente mesmo.<\/p>\n<p>Em uma entrevista exclusiva para a Rede de Comunica\u00e7\u00e3o do Jornalismo Colaborativo, perguntamos \u00e0 Ana Suy alguns aspectos sobre as diferen\u00e7as de Amar e Ser Amado e de que maneira podemos entender o que de fato \u00e9 o Amor.<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong>: Ana Suy, \u00e9 com muita alegria e profundo respeito pelo seu trabalho que iniciamos essa entrevista com algumas perguntas que esperamos responder \u00e0s muitas d\u00favidas em comum com nosso p\u00fablico leitor.<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong>: Em um semin\u00e1rio sobre \u201cO Amor na Psican\u00e1lise\u201d voc\u00ea diz que o Amor \u00e9 qualquer outra coisa\u201d. Mestre do simbolismo, Baudelaire dizia que o amor \u00e9 a grande coisa da vida. Para voc\u00ea o que \u00e9 o Amor pura e simplesmente?<\/p>\n<p><strong>Ana Suy:\u00a0<\/strong>O amor \u00e9 outra coisa, rs. Quando fa\u00e7o essa brincadeira nas redes sociais, de insistir que o amor \u00e9 outra coisa, sempre recebo perguntas indignadas: mas afinal, o que \u00e9 o amor? Como se fosse poss\u00edvel defini-lo e dar uma \u00faltima resposta. Essa brincadeira de dizer que o amor \u00e9 outra coisa me interessa muito na medida em que ela destaca um desencontro no amor. N\u00e3o digo nem do desencontro de um com o outro no par amoroso, mas no desencontro de cada um com a experi\u00eancia amorosa. O amor est\u00e1 sempre escapulindo. \u00c9 o que nos leva a persistir. Para usar um\u00a0<em>psicanalitiqu\u00eas<\/em>, poderia dizer que \u00e9 a presen\u00e7a do desejo no amor que leva o amor a ser sempre outra coisa.<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong>: O amor j\u00e1 foi definido como a jun\u00e7\u00e3o de duas partes que se completam, constituindo um ser andr\u00f3geno que, em seu caminhar girat\u00f3rio, perpetua a exist\u00eancia humana. No mundo das ideias de Plat\u00e3o, o erro cometido teria sido desafiar os Deuses. E como castigo, Zeus separou este ser com seus raios, que divididos, incompletos e infelizes, passaram a procurar por toda a parte a sua cara metade. Como voc\u00ea contextualizaria o mito dessa busca por uma alma g\u00eamea para restaurar a perfei\u00e7\u00e3o que desapareceu para que nossas identidades sobrevivessem?<\/p>\n<p><strong>Ana Suy:\u00a0<\/strong>Esse mito demonstra bem a fantasia de completude que nos orienta: a ideia de que encontraremos nossa metade da laranja, a tampa da panela, e por que n\u00e3o, mais recentemente, \u201ca melhor vers\u00e3o de n\u00f3s mesmos\u201d. Seja uma vers\u00e3o em par ou uma vers\u00e3o individualizada, o que esse mito sustenta \u00e9 que haveria um modo de n\u00e3o termos que haver com nossa falta, de que existiria algum jeito de escapar da castra\u00e7\u00e3o. Essas sa\u00eddas s\u00e3o todas fakes. No fim do dia temos sempre que nos haver com alguma estrangeirice em n\u00f3s mesmos, o que esburaca essa fantasia de completude.<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong>: Ao observar a presen\u00e7a cada vez mais forte da Mulher contempor\u00e2nea, quais as mudan\u00e7as que voc\u00ea destaca sobre o posicionamento do homem em rela\u00e7\u00e3o ao Amor e ao feminino no s\u00e9culo XXI?<\/p>\n<p><strong>Ana Suy:\u00a0<\/strong>O amor, historicamente, tem uma fun\u00e7\u00e3o bastante importante na vida das mulheres. At\u00e9 recentemente precis\u00e1vamos da autoriza\u00e7\u00e3o de um homem (o pai, o marido) para fazer coisas como estudar, trabalhar, votar \u2013 quando isso era poss\u00edvel. Nos dias de hoje, fazer isso nos parece t\u00e3o simples que tendemos a tomar como algo natural, mas \u00e9 preciso lembrar que isso \u00e9 efeito de muita luta, de muita reivindica\u00e7\u00e3o, de muito trabalho. Nos dias de hoje, ent\u00e3o, o casamento e a maternidade, embora sejam valiosos na vida de muitas mulheres, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais tudo para cada uma. Isso muda a rela\u00e7\u00e3o das mulheres com o amor, e n\u00e3o h\u00e1 quem saia ileso do reposicionamento dessa equa\u00e7\u00e3o. Os homens, as crian\u00e7as, todos s\u00e3o afetados. As mulheres j\u00e1 se questionavam antes sobre as suas exist\u00eancias, identidades, modos de viver a sexualidade e seguem se questionando. Mas cada vez mais tamb\u00e9m os homens t\u00eam colocado essas quest\u00f5es no centro de sua vida. Tenho recebido muitos relatos de homens que t\u00eam lido \u201cA gente mira no amor e acerta na solid\u00e3o\u201d e t\u00eam recomendado o livro \u00e0s suas companheiras, o que me deixa positivamente espantada. O mais comum sempre foi que as mulheres lessem meus escritos, buscassem an\u00e1lise ou psicoterapia, enquanto os homens resistiam \u00e0s quest\u00f5es e reinven\u00e7\u00f5es. O cen\u00e1rio est\u00e1 mudando.<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong>: Depois de um certo tempo, muitos casais passam a cogitar a ideia de abrir o relacionamento e introduzir um terceiro elemento. Algo que para Freud deveria permanecer oculto na vida do sujeito e que, quando aparece, causa estranheza, para outros pode ser interessante. Em sua an\u00e1lise, voc\u00ea acredita que tal fantasia poderia desencadear uma decep\u00e7\u00e3o e com isso o fim do relacionamento? Como voc\u00ea v\u00ea essa situa\u00e7\u00e3o se em uma rela\u00e7\u00e3o h\u00e1 v\u00e1rias formas de amar?<\/p>\n<p><strong>Ana Suy:\u00a0<\/strong>Enquanto houver amor, haver\u00e1 fantasia presente. Na medida em que uma fantasia pode ser realizada, outra aparecer\u00e1, uma vez que a fantasia \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para o desejo. Nesse sentido, n\u00e3o me parece problem\u00e1tica a tentativa da realiza\u00e7\u00e3o de uma fantasia, j\u00e1 que ela \u00e9 imposs\u00edvel, por estrutura. Por\u00e9m, o que chama aten\u00e7\u00e3o em sua pergunta \u00e9 o momento em que muitos casais decidem incrementar a rela\u00e7\u00e3o, digamos. Por vezes, o fazem em momentos em que j\u00e1 n\u00e3o sabem mais como sustentar uma rela\u00e7\u00e3o, por vezes j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais rela\u00e7\u00e3o. Me parece mais cr\u00edtico o momento e os motivos que levam \u00e0s invencionices do que as sa\u00eddas que cada casal encontra para manter ou reacender as fantasias amorosas e sexuais.<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong>: \u00c9 certo que cada um cria seu caminho a partir de suas pr\u00f3prias escolhas. Parece, no entanto, existir especialmente na mulher, uma insist\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao Amor. Podemos pensar na posi\u00e7\u00e3o feminina como mais persistente em criar sa\u00eddas para se manter rela\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p><strong>Ana Suy:\u00a0<\/strong>A\u00ed faz-se importante diferenciar as mulheres da posi\u00e7\u00e3o feminina. A posi\u00e7\u00e3o feminina \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o poss\u00edvel de se viver o amor, seja ele vivido por uma mulher, por um homem, por algu\u00e9m n\u00e3o bin\u00e1rio. \u00c9 pr\u00f3prio da posi\u00e7\u00e3o feminina a abertura para o desconhecido, a sustenta\u00e7\u00e3o de um corpo que suporta a estranheza, o desconhecido\u2026. caracter\u00edsticas essas que s\u00e3o pr\u00f3prias do encontro amoroso. Certamente, em nossa cultura, ainda s\u00e3o as mulheres que mais servem de suporte \u00e0 novidade. Aos homens, o que \u00e9 mais reservado, ainda, \u00e9 que eles n\u00e3o se emocionem, n\u00e3o sintam, n\u00e3o chorem, n\u00e3o amem \u2013 sob o risco de ter sua masculinidade amea\u00e7ada. O amor amea\u00e7a a masculinidade de cada um\/a, mesmo.<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong>: Se considerarmos que atravessamos um momento absolutamente diferente do que tradicionalmente era vivenciado em tempos anal\u00f3gicos, voc\u00ea acredita na possibilidade dos algoritmos desses muitos aplicativos de relacionamentos serem aliados para verdadeiros romances, tendo em vista que os mesmos cruzam afinidades entre os usu\u00e1rios? Como os ideais podem ser garantias quando as diferen\u00e7as fazem parte das conting\u00eancias do amor?<\/p>\n<p><strong>Ana Suy:\u00a0<\/strong>N\u00e3o acredito. Confesso que respondo rindo, porque posso um dia me surpreender, \u00e9 claro, mas hoje tenho clareza de que o que nos interessa na experi\u00eancia amorosa, \u00e9 o insond\u00e1vel, o incalcul\u00e1vel, o \u201cincruz\u00e1vel\u201d!<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong>: Por fim, em \u201cNota sobre o Desejo\u201d voc\u00ea descreve o quanto devemos movimentar a intensidade com que se ama. Logo, amor \u00e9 tamb\u00e9m trabalho. E se reconhecemos que as rela\u00e7\u00f5es humanas tamb\u00e9m fazem parte de um trabalhar com algo que gostamos, como voc\u00ea atribui o sucesso das rela\u00e7\u00f5es entre um casal que conscientes do compromisso e necessidade do \u201carroz, feij\u00e3o e boletos\u201d, consegue, perdurar por toda a vida sem ficarem presos a um ideal ou numa paralisia silenciosa?<\/p>\n<p><strong>Ana Suy:\u00a0<\/strong>Acho que a ideia de \u201cperdurar a vida toda\u201d j\u00e1 \u00e9 um ideal que pode perturbar o pr\u00f3prio amor. Alguns chegam a viver um amor a vida toda, mas n\u00e3o acho que essa seja a \u00fanica forma ou mesmo a melhor forma de viver um amor. Amor \u00e9 uma experi\u00eancia singular, toda vez que comparamos com outra experi\u00eancia amorosa, estamos de novo em torno de um ideal que se esfor\u00e7a para n\u00e3o cair e que com isso pode perder muito. Amor \u00e9 exce\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 regra.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"100%\" height=\"460\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/q_1QIDAx_Zs\" title=\"Para al\u00e9m do material - Psican\u00e1lise\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<hr \/>\n<p>Essa entrevista exclusiva de Ana Suy refor\u00e7a o prop\u00f3sito da Rede de Comunica\u00e7\u00e3o do Jornalismo Colaborativo em que o preto e branco s\u00f3 existem em nosso logotipo, pois diante de um momento em que ainda somos bombardeados com not\u00edcias de intoler\u00e2ncia e discursos de \u00f3dio, sempre buscamos respeitar os diferentes tons que os Colaboradores utilizam para dar vida e novas cores \u00e0 Imprensa.<\/p>\n<p>Um agradecimento especial \u00e0 tamb\u00e9m psicanalista\u00a0<a href=\"https:\/\/danivitoretti.com\/textos\/sobre-o-amor\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Daniela Vitoretti<\/a>\u00a0que contribuiu para o embasamento das quest\u00f5es que trouxemos \u00e0 nossa entrevistada\u00a0Ana Suy\u00a0que estar\u00e1 na\u00a0Bienal do Livro, dia\u00a010 de Julho\u00a0em um bate-papo e sess\u00e3o de aut\u00f3grafos com sua mais recente obra \u201cA gente mira no amor e acerta na solid\u00e3o\u201c.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/jornalismocolaborativo.com\/amor\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jornalismo Colaborativo<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existe um c\u00f3digo secreto registrado em uma linha t\u00eanue entre a cria\u00e7\u00e3o e a identidade do ser humano que extrapola os limites da raz\u00e3o. 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