Saúde Mental, Família e Escuta Clínica na Sociedade Contemporânea

O lugar da psicoterapia psicanalítica diante das transformações nos vínculos

Por Daniela Castro Vitoretti
Psicóloga Clínica | CRP 05/27107

A saúde mental entrou no centro da conversa pública, mas o sofrimento ainda costuma sussurrar nas bordas. A velocidade do cotidiano oferece atalhos, rótulos e promessas de alívio imediato. O custo é alto: perdemos a chance de compreender o sentido do que nos machuca. A clínica psicanalítica trabalha contra essa pressa. Sustenta o tempo da palavra e da escuta para que a dor deixe de ser ruído e se torne mensagem decifrável.

Desde Freud, o sintoma não é interpretado como falha de caráter nem como defeito do organismo. É uma formação de compromisso que preserva e denuncia algo do desejo, um arranjo tenso entre forças psíquicas que não encontram outro caminho. Em linguagem simples, o sintoma é solução provisória. Ele protege e cobra.

Quando entram em cena as relações íntimas e familiares, esse mecanismo se torna ainda mais nítido. O conflito conjugal se repete com temas variados, mas a estrutura permanece, como uma música que muda a letra sem alterar o ritmo.

A transferência é o laboratório vivo onde essas lógicas aparecem. Aquilo que nos fez sofrer em outras épocas retorna na relação com o terapeuta, agora de modo observável e trabalhável.

Na clínica de casal e família, a transferência circula entre todos, inclusive sobre ausentes que permanecem presentes na forma como falamos deles. O tratamento não busca harmonia perpétua. Busca responsabilidade subjetiva.

Quando o sujeito reconhece a própria participação na cena, algo do circuito se desarma. E novas saídas ficam possíveis.

Quando o sintoma orienta, o ruído se organiza em sentido

Ansiedade que cresce em silêncio. Inibição que faz a vida caber numa caixa. Explosões que parecem sem causa. Nada disso é aleatório. Há uma lógica em jogo. A formação de compromisso tenta resolver um impasse entre desejo e proibição. Em muitos casais, a briga recorrente não nasce do motivo aparente. Ela colhe material da história de cada um e se organiza como um script íntimo, aprendido cedo, que procura se repetir para tentar, enfim, se escrever melhor.

O trabalho clínico oferece uma via mais paciente. Em vez de retirar sintomas a qualquer custo, procuramos lê-los. Quando o sujeito encontra palavras para dizer o que até então só se mostrava como dor, a função do sintoma se desgasta. Ele deixa de ser a única solução e pode perder força. Alguns desaparecem. Outros se transformam em modos de vida mais suportáveis. Não há triunfo eufórico. Há o alívio discreto e robusto de sentir que se participa da própria história.

Essa passagem do ruído ao sentido exige responsabilidade, e não culpa. Responsabilidade é a possibilidade de responder de outra forma. Culpa fixa o sujeito no ato falho e reabre o circuito do castigo. A clínica sustenta a diferença. Onde a culpa repete, a responsabilidade reescreve. É um deslocamento pequeno na superfície, mas profundo na estrutura, que muda o modo de pedir, de negar, de aproximar e de se afastar.

Família como estrutura simbólica e fundamento do arranjo social

A psicanálise trabalha com funções, não com moldes. A variedade de formatos familiares do nosso tempo não é um problema clínico em si. O que importa é a circulação de palavra, o lugar do limite e a possibilidade de reparação após o conflito. Cuidar não é tomar tudo para si. Limitar não é punir. Nomear não é colar rótulo permanente. Quando essas funções se articulam, as diferenças de organização não ameaçam a saúde psíquica. Tornam-se cenário para que cada um encontre um lugar possível.

Lugar é mais que posição na certidão. É o ponto simbólico a partir do qual cada pessoa pode desejar sem devorar o outro. Sem lugar, a relação vira fusão. Com lugar demais, vira exílio. O equilíbrio não é fórmula. É trabalho de linguagem. A lei entra como marca de alteridade. Diz que ninguém é tudo para ninguém e que o desejo precisa circular para não adoecer. O desejo, por sua vez, não coincide com a vontade momentânea. Precisa ser endereçado, ouvido e contradito. Só assim ganha consistência e deixa de exigir provas infinitas de amor, cuidado e presença.

Quando esse tecido falha, o vínculo emperra. A presença vira vigia. O cuidado vira tutela. O silêncio vira segredo opaco. A clínica recoloca os termos. O que era controle pode se converter em limite confiável. O que era tutela pode se tornar pertença. O que era segredo pode ganhar forma de confidência. Nada disso elimina conflitos. Apenas cria uma gramática comum para atravessá-los com menos ferida inútil.

Linguagem que faz e desfaz laços

O inconsciente estruturado como linguagem não é um enigma para iniciados. É um aviso técnico. Nas famílias, certos significantes organizam papéis que parecem naturais. O forte, a equilibrada, o difícil. Essas nomeações descrevem menos do que convocam. Funcionam como pequenas direções de cena. Sem perceber, cada um atua o que foi chamado a ser. O resultado é uma história que se escreve sozinha e aprisiona justamente por parecer inevitável.

A escuta clínica opera cortes nesse automatismo. O deslocamento do “você nunca me ouve” para o “eu não consigo pedir” abre uma fresta por onde o sujeito aparece. O salto do “sou assim” para o “fui chamado assim” devolve liberdade para tentar outra forma de estar com o outro. Muitas vezes, o avanço mais decisivo não vem de um bom argumento, mas de um silêncio bem colocado. É nesse vazio momentâneo que o dito pode emergir, e o indizível deixa de pesar apenas no corpo.

Converter segredo em narrativa não significa expor intimidade sem medida. Significa encontrar linguagem para o que já nos atravessa. Quando uma dor ganha estatuto de palavra, ela passa a obedecer ao tempo da fala. Respeita pausas, cortes e retomadas. Torna-se transformável. Mesmo quando não desaparece, já não comanda a cena.

Transferência enquanto laboratório vivo do vínculo

A transferência não é simpatia nem oposição ao terapeuta. É a reaparição, na relação atual, de modos antigos de amar, brigar e demandar. No trabalho com casais e famílias, essa trama se revela de formas cruzadas. Alguém dirige ao terapeuta palavras que deveriam chegar ao parceiro. Outro pede ao parceiro uma autorização que só poderia vir de uma experiência anterior não simbolizada. Tudo o que parece deslocado importa, porque aponta para aquilo que não encontrou lugar próprio na história.

O manejo técnico se apoia em três pilares silenciosos. O primeiro é a regra de dizer. Tudo que se pensa pode ser dito, já que o indizível muitas vezes é justamente o que pede nome. O segundo é a atenção que não se fixa apenas no conteúdo. O como se fala revela o que retorna, seja na repetição de palavras, nos lapsos, na entonação que sobe quando o assunto encosta em um ponto sensível. O terceiro pilar é o corte. Encerrar uma sessão no momento de maior tensão não é deserção. É reconhecimento de que o pensamento continua trabalhando fora da sala e que o tempo lógico faz parte do tratamento.

Quando a transferência é nomeada, ela perde invisibilidade. A conversa muda de temperatura. O casal descobre outras maneiras de se endereçar. Pedir não precisa humilhar. Negar não precisa ferir. Aproximar não precisa engolir. O conflito não some, mas já não precisa repetir o mesmo desfecho.

Obsessão, dívida e o “sempre mais”

Em muitos impasses conjugais, a lógica obsessiva ocupa o centro sem que os envolvidos se deem conta. O cuidado vira cálculo. O amor pede recibo. O tempo é controlado como se o afeto precisasse obedecer a uma planilha. É comum que o erotismo se torne assunto a ser administrado até perder surpresa. É comum que a decisão seja adiada até que a vida passe. O ideal de certeza, aqui, é um modo de não se comprometer com a falta que atravessa qualquer relação humana.

A leitura lacaniana do plus-de-jouir ajuda a identificar a engrenagem. Sempre mais prova. Sempre mais explicação. Sempre mais virtude. O excesso organiza o laço e impede o encontro. A intervenção não busca corrigir pessoas. Busca nomear a posição. Quando o circuito é visto com seus próprios termos, surge a possibilidade de soltura. O mesmo sujeito que calculava tudo descobre que não precisa de garantias totais para se implicar. O mesmo casal que cobrava provas sem fim percebe que a presença não se mede com régua.

Corpos que falam quando a palavra falha e o corpo responde

O corpo participa da conversa mesmo quando ninguém lhe dá a palavra. Enxaquecas recorrentes, gastrites que não cedem, fadiga que se acumula sem causa aparente podem ser a forma encontrada para exibir tensões mantidas sob silêncio. Não é superstição. A articulação entre emoção, sistema nervoso e imunidade é um dado da experiência clínica e das pesquisas contemporâneas. O ponto ético é não transformar isso em acusação. O convite é à autoria possível.

Aprender a dizer não. Distribuir tarefas de cuidado que existem no cotidiano e não apenas no discurso. Estabelecer horários de descanso que valham para todos. Combinar rotinas de maneira explícita. Esse conjunto simples tem efeito de sustentação psíquica. Não porque elimina o conflito, mas porque oferece um chão para que o conflito não se converta em acusação permanente. Quando a estrutura cotidiana se torna menos punitiva, os sintomas perdem parte da necessidade de existir.

Ética da escuta: autorização, lugar e diferença

A pergunta sobre quem autoriza o analista é central. A clínica que propomos não se sustenta apenas em técnica. Pede formação continuada, supervisão e uma ética que coloque o desejo do sujeito em primeiro plano. Essa ética também exige reconhecer os atravessamentos de classe, raça, gênero e linguagem. Ignorá-los é deixar que silenciem quem já chega sem lugar. Torná-los nomeáveis melhora a escuta e afina a intervenção.

Outra marca dessa ética é a parceria com outras áreas. Psicanálise não substitui medicina, psiquiatria, serviço social ou escola. A boa prática sabe convocar o que for preciso. Em alguns momentos, o cuidado exige medicação. Em outros, intervenção pedagógica. Em muitos, rede de apoio comunitário. O efeito de verdade aparece quando cada campo faz o que lhe cabe e, juntos, conseguem sustentar quem sofre.

O que muda quando a palavra encontra lugar

A clínica não promete um conto permanente de paz. Promete trabalho e dignidade. Quando a palavra encontra um lugar que a aguente, a mesma briga já não pede a mesma coreografia. O casal continua discordando, mas aprende a não se destruir. A família segue lidando com perdas e chegadas, mas encontra ritmo para atravessá-las. A criança deixa de atuar o personagem que lhe foi dado e ganha espaço para inventar um pouco de si. O adulto aprende a desobedecer com respeito e a cuidar com limite. São mudanças discretas no cotidiano que, somadas, reconfiguram destinos.

Coragem para habitar o presente

O sujeito não cabe no diagnóstico nem a família se reduz à sua forma. Somos feitos de linguagem, história e corpo. Onde algo se repete com força demais, há um pedido de leitura. O que hoje surge como sintoma foi, ontem, a melhor saída possível. Honrar essa função é o primeiro passo para deixá-la partir. A clínica psicanalítica oferece tempo e escuta para que cada um se autorize a responder de outro modo. Não é um milagre de harmonização. É um gesto de coragem. Se a palavra encontra lugar, o vínculo deixa de ser prisão e pode voltar a ser encontro. E quando um encontro acontece, mesmo que pequeno, abre-se um presente que vale ser habitado.

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